Todo o ser Humano luta por ter um papel principal: é o artista no teatro ou no cinema que tenta a todo o custo ser a “figura do cartaz”, o futebolista que quer ser o melhor, o político chegar ao auge … etc … etc … etc, mas nem todos o conseguem.
Será que não?
Existem duas fazes na vida do ser Humano em que se consegue esse papel: no nascimento e na morte.
Com a morte, esse papel atinge o ponto mais alto na carreira do verdadeiro artista, tenha ele tido uma existência grandiosa ou medíocre.
Recentemente, morreu uma pessoa minha conhecida e eu entendi que lhe devia de prestar uma última homenagem, para o fazer desloquei-me á capela da Senhora da Graça, a mesma fica situada em Quiaios.
A morte, em todas as sociedades, é vista como o fim de um caminho e o início de outro, como tal envolve sentimentos, sendo o mais marcante o respeito pelo falecido, mas será que o é?
A capela, tem no seu interior uma parte destinada a “velar” os mortos; foi aí que eu me dirigi afim de pela última vez poder ver o homem que dias antes eu tinha “visitado” no hospital e ambos nos tinhamos rido, chegamos mesmo a admirar as belas enfermeiras; são estes momentos que fazem de nós seres eternos.
Ao entrar na dita capela, direi antes taberna porque mais parecia uma, tal era o barulho infernal, fiquei revoltado, as “carpideiras” não velavam o morto, falavam em voz alta como se já estivessem com os copos e o morto esse, só não fugiu certamente por vergonha e por respeito, afinal era a figura central deste drama trágico-cómico.
A cena foi simplesmente vergonhosa, eu não pude despedir-me deste homem com a dignidade que ele merecia, fugi do local com vergonha de mim mesmo; vergonha por não ter conseguido fazer parte desta cena, a mesma que envergonha esta sociedade moralista.
A morte é nossa irmã, mas quem morre merece o nosso respeito, na minha vila verifiquei que velar um morto é igual a ir a uma feira ou tomar um copo numa tasca. Será que dentro deste palco, o padre é o único que se safa???
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Silvério